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Vítimas de tragédia em Mariana vivem consequências do luto e lutam por indenização


A segunda reportagem da série 'Mariana, uma tragédia que não acabou' mostra como muitas famílias ainda vivem à espera de decisões judiciais. Quatro anos após o rompimento da barragem da Samarco, a CBN ouviu histórias de parentes e vítimas que sentem até hoje os efeitos da tragédia. A série é uma parceria com o portal G1.
POR LAURA MARQUES ([email protected])*

Após todo esse tempo, a ferida de Priscila Barros, de 31 anos, continua aberta. Ela estava grávida, de 3 meses, e perdeu o bebê enquanto lutava contra a avalanche de lama que invadiu a casa onde estava, no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana. Apesar de ter comprovação da gravidez, a dona de casa ainda tenta obrigar a Samarco a reconhecer o aborto do filho como vítima da tragédia, por meio da Justiça.

"Eu tenho aqui o laudo do médico que fazia meu pré-natal, e está aqui também o exame de sangue que fiz em laboratório particular com resultado reagente. Eles têm que reconhecer que meu bebê era uma vítima. Eu não tive o prazer de amamentar meu filho. Nem o prazer de conhecer, nem por ultrassom. De escolher um nome. Eles me impediram isso. Eles tiraram este direito meu", lamenta Priscila.

Priscila vive hoje em uma casa alugada pela Samarco, numa vila que tem o nome da empresa. O marido, que perdeu a carteira de trabalho na lama, não tem como comprovar experiência profissional. Ele só conseguiu uma vaga como montador de andaimes na mesma mina onde ficava a barragem em Mariana.

O irmão de Priscila, Wesley Isabel, de 27 anos, vive todos os dias a renovação da tragédia. Depois de ver a filha, Emanuelly, que tinha 5 anos, ser levada pela lama, ele se entregou para as drogas. Já livre do vício, o pedreiro enfrenta agora um processo de divórcio, que ele acredita que foi motivado pelos efeitos do desastre.

"Fiquei um tempo usando crack. Por causa daquilo eu só falava o nome dela o dia inteiro, chamando a Emanuelly. Graças a Deus eu fui preso. Eu estava sem limite nenhum. Depois que eu saí da cadeia, eu fiquei tranquilo um tempo com a Pâmela. Aí veio esse negócio de indenização, o que aconteceu com a Emanuelly. Mexeu com o psicológico de todo mundo", disse Wesley.

Quatro anos depois do rompimento da barragem da Samarco, uma família de Bento Rodrigues, nunca pode encerrar o ciclo de luto. Isso porque o corpo de Edmirson Pessoa nunca foi encontrado. Reservados, o filho e a esposa dele não quiseram gravar entrevista. Quem conversou com a CBN e o portal G1 foi o advogado da família, Bruno Lamis. Ele conta que o maior desejo de seus clientes seria poder enterrar o parente querido:

"Muitas vezes, a Samarco ofereceu acordo e o Rony sempre deixou muito claro isso. Não poderia pegar qualquer quantia em dinheiro antes de achar o corpo do pai. Ele não desistiu ainda. Nem ele, nem a Dona Terezinha. Ela tem um quadro depressivo severo. A gente juntou no processo laudos médicos que comprovam que em razão da morte do marido houve um agravamento do quadro psíquico dela. É um luto eterno."

Somente no início deste mês a Justiça do Trabalho deu uma decisão reconhecendo o atestado de óbito de Edmirson. Conforme a determinação, a Samarco, a Vale e BHP Billinton terão que pagar indenização à mulher e ao filho da vítima. O valor é R$ 2 milhões em reparos trabalhistas. Os dois ainda vão receber R$ 500 mil por danos morais. A esposa dele tem direito também a um salário vitalício, equivalente a dois terços da remuneração líquida mensal do ex-marido, que trabalhava na Samarco. A decisão judicial ainda cabe recurso.

*Em parceria com Patrícia Fiúza e Cíntia Paes, do portal G1 Minas.

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