Geopolítica e Exportações: O Agronegócio Brasileiro em Encruzilhada em 2026
- Rádio AGROCITY

- 17 de jan.
- 4 min de leitura
O ano de 2026 começou com um cenário turbulento para o agronegócio brasileiro. Enquanto o país celebra recordes históricos de exportação, a geopolítica internacional emerge como uma ameaça silenciosa e crescente. A China implementou cotas de importação para carne bovina, os Estados Unidos ameaçam novas tarifas, e o Brasil se vê preso em uma encruzilhada onde decisões políticas que não controla podem comprometer bilhões em receitas de exportação. Este é o momento de compreender os riscos e preparar estratégias de mitigação.

Recordes de Exportação Mascarando Vulnerabilidades
O Brasil encerrou 2025 com números impressionantes. As exportações de carne bovina atingiram US$ 16,61 bilhões, representando um crescimento de 42,5% em relação a 2024 (US$ 11,66 bilhões). O volume embarcado alcançou 3,09 milhões de toneladas métricas, superando em 21,4% o recorde anterior de 2024. Esses números colocam o Brasil como o maior produtor e exportador mundial de carne bovina, consolidando a posição do país como potência agrícola global.
No entanto, por trás desses números positivos, existe uma realidade preocupante: a dependência de mercados externos e a vulnerabilidade às decisões geopolíticas. O comércio bilateral Brasil-China atingiu um recorde de US$ 171 bilhões em 2025, com a China respondendo por 27,2% de toda a corrente de comércio exterior do Brasil. Essa concentração de mercado, embora economicamente vantajosa no curto prazo, cria riscos estratégicos significativos.
A Bomba Geopolítica: Cotas Chinesas e Tarifas Americanas
A principal notícia do dia que afeta o agronegócio brasileiro é a implementação de medidas protecionistas pela China. O país asiático estabeleceu uma cota de 1,106 milhão de toneladas para importação de carne bovina brasileira sem tarifas adicionais em 2026. Esse número é alarmante: em 2025, o Brasil exportou 1,64 milhão de toneladas para a China, ou seja, 48% acima do limite imposto. Qualquer volume adicional sofrerá uma sobretaxa de 55%, impactando significativamente a rentabilidade das exportações.
Simultaneamente, os Estados Unidos anunciaram uma tarifa adicional de 25% para países que mantêm relações comerciais com o Irã. Como o Brasil é um importante parceiro comercial do Irã, especialmente no setor de milho (o Irã importou US$ 1,98 bilhão em milho brasileiro em 2025, representando 23,1% das exportações totais de milho do país), essa decisão americana cria uma situação paradoxal: o Brasil não pode simplesmente abandonar seus parceiros comerciais sem sofrer consequências econômicas.
Financiamento e Políticas Públicas: Ferramentas Insuficientes
Diante desse cenário, o financiamento do agronegócio brasileiro enfrenta desafios crescentes. Os produtores precisam de linhas de crédito mais flexíveis para diversificar mercados e reduzir a dependência de poucos compradores. As políticas públicas devem focar em:
Diversificação de mercados: Investir em novos parceiros comerciais na Ásia, Oriente Médio e América Latina para reduzir a concentração em China e EUA.
Financiamento com taxas reduzidas: Linhas de crédito especiais para produtores que investem em agregação de valor e processamento local.
Negociações diplomáticas: Ações governamentais para flexibilizar as cotas chinesas e evitar novas tarifas americanas.
Gestão de risco: Instrumentos financeiros para proteção contra volatilidade de preços e câmbio.
O Acordo UE-Mercosul: Uma Luz no Fim do Túnel?
Em meio às pressões geopolíticas, existe uma notícia positiva: o acordo entre União Europeia e Mercosul avançou definitivamente após mais de duas décadas de negociação. Esse acordo abre novas oportunidades de mercado para o agronegócio brasileiro, especialmente para produtos de maior valor agregado. A Europa representa um mercado de 450 milhões de consumidores com alto poder de compra, oferecendo alternativas à dependência de China e EUA.
No entanto, o acordo também impõe desafios. A União Europeia exige padrões rigorosos de sustentabilidade e rastreabilidade, o que demanda investimentos em tecnologia e certificações. Produtores que conseguirem se adequar aos padrões europeus terão acesso a um mercado premium, com preços mais altos e maior estabilidade.
Dados Alarmantes: Quando a Tarifa Será Aplicada?
Uma pergunta crucial paira sobre o setor: em qual mês de 2026 o Brasil atingirá a cota de 1,106 milhão de toneladas estabelecida pela China? Com base nos dados de embarque de 2025, projeções indicam que a tarifa adicional de 55% pode ser aplicada já na segunda metade de 2026. Isso significa que produtores têm apenas alguns meses para se preparar para uma redução significativa de rentabilidade.
Os dados de janeiro de 2026 já mostram sinais de alerta. O embarque médio diário nos primeiros dias de janeiro foi 80% acima da média de janeiro de 2025, sugerindo que o Brasil pode atingir a cota chinesa mais rapidamente do que o esperado. Essa aceleração pode ser resultado de produtores tentando antecipar embarques antes da aplicação da tarifa.
Conclusão: Preparação é Essencial
O agronegócio brasileiro está em um ponto de inflexão. Os recordes de 2025 não devem criar uma falsa sensação de segurança. A geopolítica internacional está se tornando um fator determinante para o sucesso das exportações, e o setor precisa se adaptar rapidamente. Produtores, cooperativas e empresas de exportação devem investir em diversificação de mercados, agregação de valor e gestão de risco. O governo, por sua vez, deve intensificar negociações diplomáticas e oferecer instrumentos financeiros adequados para apoiar essa transição.
O futuro do agronegócio brasileiro não depende apenas de produtividade e eficiência. Depende também da capacidade de navegar em um mundo cada vez mais complexo, onde decisões políticas em Pequim e Washington podem impactar a renda de produtores em Mato Grosso e Goiás. A hora de se preparar é agora.







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