A Nova Era Fiscal do Campo: O Que a Regulamentação da Reforma Tributária Reserva para o Agronegócio em 2026
- Rádio AGROCITY

- 15 de jan.
- 5 min de leitura

O Marco Inicial de uma Transformação Centenária
O ano de 2026 inicia-se sob a égide de uma das mudanças mais profundas na estrutura econômica do Brasil desde a redemocratização. Com a virada do calendário, o país entra oficialmente no "período de teste" da Reforma Tributária sobre o consumo, um processo iniciado com a Emenda Constitucional 132 e consolidado, nos últimos dias, pela sanção da Lei Complementar 227/2026. Para o agronegócio, motor do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, este não é apenas um ajuste contábil, mas o início de uma nova dinâmica de competitividade e transparência fiscal que afetará desde o pequeno produtor de Minas Gerais até as gigantes exportadoras de grãos do Centro-Oeste.
O cenário político-institucional em Brasília é de intensa atividade. Após meses de negociações entre a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o Ministério da Fazenda e as lideranças do Congresso, o texto final da regulamentação foi definido. A importância deste fato reside na transição do modelo fragmentado de cinco tributos (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS) para o sistema de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) Dual, composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) federal e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) estadual e municipal. Em 2026, a alíquota simbólica de 0,1% começa a ser aplicada apenas para aferição do sistema, marcando o fim de uma era de incertezas jurídicas e o início de um aprendizado digital obrigatório para o campo.
O Detalhe da Proposta: A Lei Complementar 227/2026 e a Operação em "Branco"
A sanção da Lei Complementar 227/2026 encerra o ciclo de incertezas sobre as regras do jogo. O texto legal detalha como será o funcionamento do cashback tributário, a cesta básica nacional isenta e, crucialmente para o setor produtivo, o regime diferenciado para o agronegócio. Um dos pontos centrais da proposta é a manutenção da alíquota reduzida em 60% para insumos agropecuários, garantindo que o custo de produção não sofra um choque imediato que poderia comprometer a segurança alimentar e o controle da inflação, que fechou 2025 dentro da meta graças ao desempenho das safras.
Neste ano de 2026, o governo federal e os estados implementam a chamada "operação em branco". Isso significa que as empresas e cooperativas deverão emitir a Nota Fiscal de Produtor Eletrônica (NFP-e) já com os campos da CBS e do IBS preenchidos, embora o pagamento efetivo desses novos impostos ainda seja compensado pelos tributos antigos (PIS/Cofins). O objetivo técnico é calibrar a "alíquota de equilíbrio" para 2027. Do ponto de vista político, essa fase é um compromisso do Executivo para demonstrar que a carga tributária não sofrerá aumento real, uma promessa que será testada sob o escrutínio rigoroso do Legislativo e das entidades de classe.
Impacto no Setor Produtivo: Liquidez, Créditos e a "Engorda" do Caixa
Para o produtor rural, a maior mudança prática não está na alíquota em si, mas na gestão de créditos tributários. No sistema anterior, o acúmulo de créditos de ICMS era uma das principais dores de cabeça do setor, muitas vezes transformando-se em "dinheiro parado" que levava anos para ser recuperado ou que exigia manobras jurídicas complexas. A nova regulamentação prevê o ressarcimento rápido e monetizado dos créditos de CBS e IBS. Especialistas indicam que 2026 será o ano da "engorda do caixa" para as empresas do agro que se organizarem digitalmente, permitindo que o crédito tributário seja transformado em capital de giro em até 60 dias.
Além disso, a desoneração total das exportações — um pilar constitucional mantido na reforma — ganha segurança com o novo sistema. Como o IVA é cobrado no destino (onde o produto é consumido) e não na origem (onde é produzido), as distorções entre estados produtores, como Minas Gerais e Mato Grosso, tendem a diminuir. Contudo, há um desafio regulatório para os produtores integrados e para a pecuária de corte, que precisarão de uma contabilidade mais profissionalizada para não perderem o direito ao aproveitamento de créditos sobre energia elétrica, fretes e serviços de armazenagem, que agora entram no sistema de forma ampla e linear.
O Debate Político: Entre o Desenvolvimento e o "Imposto Seletivo"
Apesar do avanço institucional, o clima no Congresso Nacional permanece de vigília. O ponto de maior fricção entre a base aliada do Governo e a oposição (fortemente representada pela bancada ruralista) reside no chamado "Imposto Seletivo" ou "Imposto do Pecado". O debate gira em torno da inclusão de defensivos agrícolas e determinados insumos químicos nesta taxação extra, sob a justificativa de impacto ambiental. De um lado, o Ministério do Meio Ambiente e setores da sociedade civil defendem que o imposto deve desestimular produtos nocivos; de outro, a Frente Parlamentar da Agropecuária argumenta que onerar defensivos é, na prática, taxar o alimento e reduzir a produtividade brasileira frente aos concorrentes internacionais.
Outra divergência institucional significativa em 2026 é a governança do Comitê Gestor do IBS. Estados e Municípios ainda disputam espaço na estrutura que irá centralizar a arrecadação e a distribuição dos recursos. Para o agronegócio, a preocupação é que a burocracia desse novo órgão não crie entraves para a liberação dos créditos acumulados. Parlamentares mineiros têm liderado discursos na Câmara pedindo que a autonomia dos estados na fiscalização seja preservada, evitando que o Comitê Gestor se transforme em uma "superestrutura" distante da realidade regional de cada polo produtivo.
Cenários Futuros e Próximos Passos: O Caminho até 2033
O que vivemos em janeiro de 2026 é apenas o primeiro quilômetro de uma maratona que se estenderá até 2033, quando o modelo antigo será definitivamente extinto. O sucesso desta fase de teste é fundamental para a estabilidade política do governo, especialmente em um ano em que as articulações para o próximo ciclo eleitoral começam a ganhar tração. Se a implementação tecnológica da Nota Fiscal de Produtor (NFP-e) apresentar falhas ou se houver um aumento perceptível nos custos de insumos por falha na regulamentação dos créditos, a pressão política por reversões ou novas isenções será inevitável.
Os próximos passos incluem o monitoramento bimestral das alíquotas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e a criação de grupos de trabalho nas federações de agricultura (como a FAEMG) para treinar o produtor rural. O cenário projetado é de uma economia mais eficiente, mas que exige um nível de conformidade fiscal sem precedentes no campo brasileiro. A política, agora, sai dos palácios e entra nos escritórios das fazendas e cooperativas, onde a teoria da lei encontrará a prática do mercado.
A Reforma Tributária não é um evento isolado, mas um processo contínuo que demanda fiscalização constante por parte da sociedade e dos produtores. Compreender os trâmites de Brasília é o primeiro passo para garantir que o setor produtivo continue sendo o pilar de estabilidade do Brasil. Acompanhar a política é, acima de tudo, um ato de cidadania e proteção do seu patrimônio.
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